17.8.09

novas cidades invisíveis: gélida


Para se alcançar Gélida necessita-se de meses e meses de viagem árdua, uma travessia que tem seu termo num dos lugares mais meridionais do planeta.

Quando cheguei pela primeira vez a Gélida, temi que ela não existisse. Tudo que vislumbrava ao meu redor era uma infinita planície, salpicada de arbustos nos quais os nativos colhem o precioso calafate. Esta é uma cidade para poucos. Durante a maior parte do ano, todo o território fica coberto de neve.


Gélida é uma pequena cidade às margens de um imenso lago azul-turquesa que, em boa parte do ano, fica congelado. De resto, tudo ao seu redor é desértico. Nos seus confins, inimagináveis glaciares destacam-se em lascas de gelo, semelhantes a grandes fortalezas, que mergulham na imensidão azul do lago. No anoitecer, de abandonadas pistas de aeroportos militares, pode-se observar a constelação da cruz numa atmosfera fria que inspira a contemplação e o êxtase.


Em Gélida, o viajante é seduzido a se aventurar no gélido deserto que margeia o lago. A solidão deste lugar inabitado só é interrompida por uma alcatéia faminta, sempre em busca de uma possível presa. Neste deserto, o viajante acaba por conhecer o verdadeiro significado desta cidade: Gélida é uma cidade mergulhada no silêncio.