12.6.12

[coisas que ouço]...o homem do blazer e o mendigo

Domingo fui comer um pastel de feira. Todo tipo de gente desfila entre frutas, legumes e caldo de cana. Um jovem morador de rua, naquela manhã fria, tratou de aparecer, pedindo café, pastel ou qualquer coisa. Não é nada fácil enfrentar noites frias numa calçada, apenas protegido por cobertores rústicos e caixas de papelão.
Cada um tem o direito de ajudar ou não. O que mais me impressionou foi a resposta de um homem sofisticado (com seu blazer negro básico) acompanhado de seu namorado, visivelmente décadas mais jovem. Ele comentou: "Como fazemos para eles não chegarem aqui?"
Pera lá! "Eles" significam os pobres, "aqui" significa o Sumaré. Veja bem, será que esse distinto cavalheiro desconhece o mundo em que vive? Será que ele não sabe que moradores de rua estão por toda parte, em Roma, Viena, NY, Paris, Mumbai, Caracas, Quito e também em São Paulo? Será que ele não sabe que nas fronteiras do capitalismo vivem os excluídos, os extranumerários, os extracomunitários, os miseráveis? Será que ele não sabe que embutido no custo de seu blazer da Oscar Freire está presente uma hipoteca social?
Tem horas que é melhor fingir-se de surdo!