É inegável que Joseph Ratzinger é um grande teólogo, talvez um dos maiores em atividade. No entanto, como papa foi apenas uma sombra daquilo que era enquanto o prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, durante o pontificado de João Paulo II. Seu projeto conservador e reinterpretador dos avanços do Vaticano II (já iniciado durante seu tempo de eminência parda do papa polonês) não saiu da recuperação de velhas alfaias e obsoletos ritos, da desconfiança sistemática de novos pensamentos e da aproximação com movimentos retrógrados.
Ele se despede inusitadamente do trono petrino, entra para história. Foi corajoso? Talvez. Não queria definhar fisicamente diante da mídia sedenta por manchetes, tal qual fez seu predecessor? Provável. Para os adeptos das teorias da conspiração: não resistiu a opressora força dos bastidores palacianos. Para os ultraconservadores: um covarde. Para os fiéis acríticos: um humilde.
Joseph Ratzinger despede-se do papado com um carta lida em latim, fiel a sua conduta conservadora, com uma frase justificativa que recupera a mutante modernidade, tão combatida por ele: "No entanto, no mundo de hoje, sujeito a rápidas transformações e sacudido por questões de grande relevo para a vida da fé, para conduzir a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor tanto do corpo como do espírito, vigor que, nos últimos meses, diminuiu em mim de tal forma que eis de reconhecer minha incapacidade para exercer bem o ministério que me foi encomendado."
Para novos tempos, novas perguntas e novas respostas. Aguardemos os novos sopros do Espírito que tudo dirige, que tudo governa.
