A minha chegada a Corsária foi inesperada. Estava indo em direção ao norte quando me vi obrigado a desembarcar naquela ilha inóspita recoberta de uma espessa névoa.
Logo no porto, encontrei uma habitante de além-mar que já travava amizade a longa data. Ela nos foi de grande ajuda: nos levou a lugares desconhecidos que os incautos turistas nem imaginam existir, somente os moradores locais conhecem.
Corsária é uma cidade linda. Seus palácios, relógios e pontes impressionam. No entanto, é uma cidade maldita: banhada com o sangue de outras cidades que ela sobrepujou, humilhou e aniquilou. Sua velha rainha esconde-se atrás de altos portões, seus habitantes bebem chás e amaldiçoam seus soberanos. Nessa cidade tudo é ritual, tudo é teatral e hipócrita.
Do alto do grande Olho da Cidade pode-se ver a majestosa capital de um império em ruínas. Corsária é uma cidade de piratas, uma cidade de partilha de pilhagens, um porto seguro para bandidos que se divertem em suas tavernas. É uma cidade orgulhosa que se vangloria de si mesma e acredita que a pequena ilha é um continente e que o grande continente não passa de uma terra a ser saqueada e inferiorizada.
O viajante que desembarcar nesse porto deve ter muito cuidado. Sendo seus habitantes de uma estirpe degenerada, desconfiam de todos, revistam todos no afã de se sentirem mais puros, mais nobres, mais elevados. No entanto, bem sabem que não passam de bárbaros com um verniz de soberania.
