Eu não gosto de funk, não gosto de camisetas polo listradas misturadas com bonés com abas para trás, não gosto de ver garotas com shorts tão curtos que disputam com o comprimento das camisetas. Enfim, não sou afeito a essa nova estética da periferia que invade as grandes cidades.
Acho importante deixar isso claro! Isso é gosto, simplesmente preferência estética. Nada de preconceito, de luta de classes, de espírito burguês. Quero apenas refletir sobre recentes acontecimentos no universo juvenil.
Os recentes rolezinhos feitos em variados shoppings de São Paulo (e agora em outras cidades) são fenômenos a serem analisados: Por que jovens andando por espaços públicos (mesmo que agora os administradores desses centros de compras queiram se proteger com a categoria de espaço privado) assombram tanto a sociedade? Enquanto eles apenas circulavam os corredores de compras, de forma anônima, silenciosa e consumista, não causavam nenhum tipo de alvoroço. Com a convocação das redes sociais, eles passaram a mostrar rostos, gostos e músicas. Por vezes, algazarra, perturbação e vandalismo.
Durante muitas décadas, um invisível muro separou os ricos dos pobres. Esses últimos sabiam bem o seu lugar na tessitura social. Os ricos, por sua vez, pareciam viver num mundo ideal de distinção e de segurança. Mas o mundo mudou! Hoje a dita classe C tem poder de compra que vai além dos carnês das Casas Bahia. Eles compram TVs de plasma, computadores, celulares. Viajam de avião, lancham no McDonalds, degustam iorgurtes e comem no Outback. Tudo agora é possível.
Os outrora intocáveis territórios agora se confundem. Dias atrás, fui numa formatura de um colégio paulistano de jovens de classe média, média-alta. O som tecno (que tanto detesto também!) rolava solto com os efeitos luminosos inebriantes, open bar e outras cositas! Lá para as tantas um som de funk da periferia invadiu a pista, para o delírio dos jovens criados com muito Ovomaltine no café da manhã. Fiquei estarrecido com a massa acompanhando aos berros uma música que dizia: "É som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado". Fui obrigado a recordar um conhecido que torce para aquele time da Marginal Tietê e que grita a plenos pulmões que é fanático e favelado, mesmo nunca tendo entrado numa comunidade da periferia e tendo um gosto refinado (e um bom cartão de crédito Platinum) por vinhos e por bares boêmios da Vila Mada.
Os muros que separavam ricos e pobres se relativizaram. É notório imaginar que nenhum pseudo-intelectual de plantão da mídia hegemônica comenta sobre os rolezinhos que jovens ricos fazem em favelas para conhecer a "vida bandida" e comprar sua cocaína e maconha. Nenhum comentarista comenta a venda para estrangeiros de pacotes turísticos que incluem a visita em favelas cariocas para se conhecer sua arquitetura peculiar e sua cultura pitoresca. Comenta-se de jovens da periferia que buscam transpor barreiras e conhecer e apropriar-se de espaços interditados.
Não me agrada ver hordas desordeiras e barulhentas de qualquer espécie. Acho que civilidade tem seu preço. Quando retorno de jogos do meu Palmeiras, fazendo parte de uma horda verdadeiramente desordeira, sou forçado (para o bem da coletividade, para o respeito de outros que não se ligam à estética fanático-futebolistica) a me calar e me comportar ao entrar na estação do metrô. No entanto, simplesmente proibir manifestações populares não leva a nada, acredito que apenas potencializa as vozes mudas dos excluídos.
Os rolezinhos são coisa boa? Acho que não. São ilegais? Creio que não. Na verdade, são pontas de um iceberg que emerge com força avassaladora. Os ditos rolezinhos são sinais evidentes de um mundo em mutação, de novas acomodações estéticas, de quebras paradigmáticas, de instabilidades territoriais, de inusitadas mudanças sociais. E o novo sempre vem. E o novo sempre assusta.
Uhhh1: A música Mais do Mesmo, do Renato Russo, retrata bem esse universo dos "civilizados" que invadem os morros. Dos rolezinhos aceitos!
"Ei menino branco o que é que você faz aqui
Subindo o morro pra tentar se divertir
Mas já disse que não tem
E você ainda quer mais
Por que você não me deixa em paz?
Subindo o morro pra tentar se divertir
Mas já disse que não tem
E você ainda quer mais
Por que você não me deixa em paz?
Desses vinte anos nenhum foi feito pra mim
E agora você quer que eu fique assim igual a você
É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui?
Quem vai tomar conta dos doentes?
E quando tem chacina de adolescentes
Como é que você se sente?
E agora você quer que eu fique assim igual a você
É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui?
Quem vai tomar conta dos doentes?
E quando tem chacina de adolescentes
Como é que você se sente?
Em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel.
Sempre mais do mesmo
Não era isso que você queria ouvir?"
Sempre mais do mesmo
Não era isso que você queria ouvir?"
Uhhh2: Por que as multidões nos assustam?
Uhhh3: Foram as hordas dos descontentes que iniciaram a Revolução Francesa! Quando as cabeças vão começar a rolar?
Uhhh4: Nossas estruturas legislativas, econômicas e republicanas (no Ocidente como um todo) estão preparadas para essa "Invasão Bárbara"?
Uhhh4: Nossas estruturas legislativas, econômicas e republicanas (no Ocidente como um todo) estão preparadas para essa "Invasão Bárbara"?
Força Sempre!
22jan2014