Zero Grau de Libra - Caio Fernando Abreu
Sol
entrou ontem em Libra. E porque tudo é ritual, porque fé, quando
não se tem se inventa, porque Libra é a regência máxima de Vênus,
o afeto, porque Libra é o outro (quando se olha e se vê o outro, e
de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com
ele), e principalmente, porque Deus, se é que existe, anda destraído
demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que
isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de
humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em
vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode
fazer quando tudo vai mal. Nesse Zero Grau de Libra, queria pedir a
isso que chamamos de Deus um olho bom sobre o Planeta Terra, e
especialmente sobre a cidade de São Paulo. Um olho quente sobre
aquele mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do Cine
Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima. Eu queria
o olho bom de Deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas,
o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as cores
vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de
semana, comem pizza com Fanta e Guaraná pelos restaurantes, e mal se
olham enquanto falam coisas como: "você acha que eu devia ter
dado o telefone da Catarina à Eliete"? e o outro grunhe em
resposta. Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram
um amor, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os
telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho
amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios,
brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano
dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários
públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se ver, nesses
lugares onde um outro ser humano vai se tornando aos poucos tão
humano quanto uma mesa. Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja,
Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga
para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete
Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting, e chora. Coloca um
spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para
pagar o aluguel tão duro como garçonetes pelos bares. Olha também
pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de
granizo, pelo motorista de táxi que confessa não ter mais esperança
alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento
pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no
caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto. Olha por
todos aqueles que queriam ser outra coisa qualquer a que não a que
são, e viver outra vida se não a que vivem. Não esquece do rapaz
viajando de ônibus com seus teclados para fazer show na capital.
Deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da
vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na
Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as
prostitutas seminuas, sobre os travestis da República do Líbano,
sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos
Jardins. Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos que
de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar
certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma, sobre
esses que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das
ilusões. Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio.
Não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua
espada. Que no zero grau de Libra, a balança pese exata na medida do
aço frio da espada da justiça. Mas para nós, que nos esforçamos
tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso,
esse Zero Grau de Libra. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria
atarantada.